Da ascensão à queda dos super-heróis nos cinemas
Atualizado: 17 de ago.
Como os filmes de super-heróis dominaram o cinema e passaram a enfrentar sinais de crise nos últimos anos.
Por Ana Rodrigues, Felipe Jacobsen e Sophia Maripensa, Revista em Foco - São Paulo
Reportagem de dados
12/08/2026

Depois de uma década dominando as salas de cinema, os filmes de super-herói passam pelo momento mais instável desde que se tornaram sinônimo de sucesso garantido em Hollywood. Entre 2020 e 2025, de 33 filmes do gênero lançados, apenas 12 foram sucessos de bilheteria. Em 2025, Superman, da DC Studios, terminou o ano na décima posição entre as maiores bilheterias, sendo o único representante do gênero entre os dez maiores sucessos do ano. Um cenário bem diferente do vivido pelo gênero durante a década passada, quando esses filmes dominavam repetidamente o topo do ranking anual de arrecadação.
Algo que reforça esse interesse esporádico é a percepção de Cecília Lóssio, de 20 anos, que acompanha os filmes da Marvel desde os 12, sobre as salas de cinema nos lançamentos mais recentes do estúdio. “Eu acho que elas estão mais vazias. Muita gente está sentindo a mesma coisa em relação a essa nova fase”. Para a fã, o único filme que conseguiu impactar a audiência pós Vingadores: Ultimato, foi Homem-Aranha: Sem Volta para Casa. “Foi uma experiência louca no cinema, tinha grito, palma, todo mundo enlouquecendo. Mas aquilo também aconteceu porque o filme reuniu personagens de várias gerações.”
Apesar do sucesso do filme, a sensação de queda de qualidade já aparecia em 2020, logo depois do lançamento de Vingadores: Ultimato, ápice comercial do gênero. “Eu sei que pode ter tido relação com a pandemia, mas eu acho que até os roteiros, as produções, a gente vê que não é mais a mesma coisa, a qualidade em si decaiu”, avalia Cecília. Essa percepção é reforçada por Roberto Sadovski, crítico de cinema do UOL: “a ideia de você consertar tudo na pós-produção supervisionada por uma figura, a qualidade sofre e o público sente. A Marvel tinha roteiros que não estavam prontos, filmavam o que estava na mão e consertavam o resto na pós.” A partir da oscilação das bilheterias, fica evidente o desinteresse do público em acompanhar os lançamentos recentes.

No entanto, durante a década de 2010, os super-heróis dominaram as salas de cinema. Ao longo do período, 13 filmes do gênero ultrapassaram a marca de US$1 bilhão em bilheteria, enquanto Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato superaram os US$2 bilhões. Com Ultimato se tornando a segunda maior bilheteria da história do cinema, atrás apenas de Avatar.
Roberto Sadovski, crítico de cinema do UOL, diz que o universo compartilhado criado pela Marvel Studios, apesar da dificuldade de reprodução, redefiniu a forma como blockbusters passaram a ser pensados em Hollywood. “Se a fórmula dá sucesso, o pensamento lógico é: vou seguir essa fórmula dentro do meu chiqueirinho para ver se consigo reproduzir o que fizeram.”
O sucesso do modelo de negócio criado pela Marvel é evidenciado pelo fato de que dez dos 13 filmes citados anteriormente foram desenvolvidos pelo estúdio, enquanto apenas três deles foram produzidos pela sua concorrente, a DC.
Apesar disso, antes da ascensão da Marvel, o estúdio rival batia de frente ao lançar sucessos de bilheteria como a trilogia do Batman: O Cavaleiro das Trevas na qual o primeiro filme arrecadou US$375.298 milhões, o segundo US$1.007.336 bilhão e o terceiro US$1.085.067 bilhão. Pedro Henrique Malheiro, que acompanha o universo da DC desde muito novo, diz: “Como filmes eu acho que são os melhores e a galera curtiu essa pegada bem mais séria e realista que eles quiseram fazer”.
No entanto, vendo o crescimento da concorrente, a DC tentou acelerar a criação de um próprio universo compartilhado. Para Pedro, esse foi justamente o principal erro do estúdio. “A impressão que eu tenho é que a DC queria chegar logo na Marvel e acabou tentando juntar os heróis rápido demais.”
Enquanto a DC era criticada por acelerar esse processo, parte do público enxergava justamente na construção gradual do Universo Cinematográfico da Marvel, um dos principais atrativos da franquia. Cecília Lóssio acredita que essa conexão entre as histórias ajudou a fidelizar o público. “Como os filmes são muito dependentes um do outro e vêm de uma produção de muitos anos, isso gera mais público.”
Primeira era dos heróis no cinema (1978 - 1999): Surgimento

No dia 15 de dezembro de 1978, dirigido por Richard Donner e estrelado por Christopher Reeve, foi lançado o clássico filme do Superman, que de acordo com Sadovski pode ser considerado o início do gênero no cinema. O longa arrecadou US$300 milhões ao redor do mundo, gerando um lucro de US$245 milhões para a Warner Bros Discovery. Isso tornou Superman um tremendo sucesso comercial ao faturar aproximadamente 5,5 vezes o seu orçamento de produção.
Com o sucesso de bilheteria, a DC resolveu apostar novamente no personagem e desenvolveu uma sequência em 1981 que, apesar de não arrecadar tanto em bilheteria como o primeiro, também pode ser considerada um sucesso.
Não satisfeitos, lançaram mais duas continuações que não chamaram tanta atenção. A segunda em 1983 e a terceira em 1987, não atingiram pelo menos 2,5 vezes o valor do orçamento de produção, sendo assim, podendo ser consideradas flops. Para servir de comparação, se as bilheterias de ambos os filmes forem somadas dá aproximadamente US$110 milhões de dólares, o que não representa nem metade do que o primeiro filme arrecadou.
Então, em 1989 foi lançado o filme do Batman, estrelado por Michael Keaton e dirigido por Tim Burton, o longa arrecadou US$411 milhões em bilheteria. Segundo Sadovski, o filme foi um verdadeiro fenômeno, “o cinema achou que tinha descoberto a nova galinha dos ovos de ouro. Então, depois de Batman, muitos estúdios pensaram em fazer os seus super-heróis. Saiu um monte de filme independente baseado em quadrinho, mas nada era tão constante.” Portanto, um padrão de altos e baixos caracterizou essa era de surgimento do gênero nos cinemas que duraria até o início dos anos 2000.

Vale ressaltar que na década de 1990 a Marvel Comics entrou em uma crise financeira na qual teve que lidar com uma dívida que superava os US$600 milhões, o que quase levou a editora à falência. Então, para evitar que isso acontecesse, venderam o direito de adaptação cinematográfica de alguns dos personagens mais populares entre os fãs, como Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Hulk, para empresas como a Sony, a Fox e a Universal, respectivamente.
Segunda era dos heróis no cinema (2000 - 2010): Modernização

Em 2000, iniciou-se uma nova era no gênero de heróis. “Acho que essa era talvez comece com X-Men em 2000, com um novo milênio, vieram novas tecnologias para fazer filme e o interesse foi renovado em super-heróis. Então, a gente viu lá Homem-Aranha, Hulk, Batman Begins, e outros personagens que foram levantados nessa época”, afirma Sadovski.
O crítico comenta como X-Men foi fundamental para romper a bolha do gênero e alcançar um público além do nicho de super-heróis. “X-Men, quando o Bryan Singer fez, não são heróis com poderes lutando contra o mal. São dois homens que têm o mesmo objetivo no fim, que é fazer com que sua raça não seja perseguida, mas tem métodos completamente diferentes para atingir isso. Um quer convivência pacífica, o outro acha que só existe por guerra. Assim se constrói uma história e faz com que o público se conecte com ela.” A estratégia se mostrou bem-sucedida, o longa arrecadou cerca de US$300 milhões em bilheteria mundial.
É importante destacar a relevância de Homem-Aranha, estrelado por Tobey Maguire e lançado em 2002. Seguindo a mesma lógica de storytelling que X-men, o longa foi o primeiro filme de super-herói a ultrapassar a marca de US$800 milhões em bilheteria mundial. Para efeito de comparação, o filme do Batman que detinha o recorde até então havia arrecadado cerca de US$400 milhões.
De acordo com Sadovski, a forma como se conta a história e a humanização dos personagens é essencial para que esses filmes tenham sucesso. “A gente quer que Peter duvide do seu papel como Homem-Aranha, duvide que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, duvide que ele esteja ligado a esse fardo, ele quer uma vida fora disso. As pessoas respondem a história, elas têm uma conexão emocional com coisas que possam ser espelhadas.”
As pessoas se identificam com esse tipo de personagem e isso pode influenciar no sucesso. “Os personagens da DC são os personagens que as pessoas almejam ser. Em seu universo, ninguém admira os personagens da Marvel, eles sempre são vistos mais como uma evolução que deu errado da humanidade ou ameaças”, segundo Sadovski.
O filme do Homem de Ferro foi o primeiro produzido pela Marvel Studios e o personagem é outro exemplo claro desse perfil mais humano e falho citado por Sadovski. Diferentemente dos heróis quase inalcançáveis da DC, Tony Stark é apresentado como um bilionário arrogante, impulsivo, egocêntrico e com problemas pessoais.
Ao longo da narrativa, o personagem erra constantemente, lida com as consequências das próprias atitudes e passa por um processo de transformação. Essa construção mais imperfeita e vulnerável aproxima o público do herói. Por conta disso, apesar de não ser um personagem de grande apelo popular da editora, o longa foi um grande sucesso, arrecadando US$585 milhões em bilheteria. Além de ter conquistado a crítica, sendo o 4º filme da história do gênero com a maior aprovação no Rotten Tomatoes, empatado com Vingadores: Ultimato e Batman: O Cavaleiro das Trevas.
Terceira era dos heróis no cinema (2010 - 2019): Popularização

Foi com o lançamento de Homem de Ferro em 2008 que a Marvel deu início ao seu universo compartilhado nos cinemas. Segundo o crítico, poucos meses depois, quando ocorreu uma conexão em O Incrível Hulk, um interesse surgiu por parte do público. “No momento que O Incrível Hulk saiu e o Robert Downey Jr. aparece em uma cena-pós crédito como Homem de Ferro, o público começa a perceber que tem alguma coisa diferente ali que ele quer fazer parte.”
Essa vontade de querer acompanhar a narrativa foi refletida na bilheteria de Os Vingadores de 2012 que unia a história de Homem de Ferro, O Incrível Hulk, Capitão América: o Primeiro Vingador e Thor, em um só filme. “Nada era parecido com aquilo, histórias tão diferentes, de repente compartilhavam o mesmo DNA.” ressalta Sadovski. O filme arrecadou cerca de US$1.5 bilhão ao redor do mundo e naquele momento se tornou a maior bilheteria já alcançada por um longa de super-herói.
Atualmente, Vingadores ocupa a 4ª posição no ranking do gênero, atrás apenas de Vingadores: Ultimato, Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa e Vingadores: Guerra Infinita. O resultado consolidou de vez o universo compartilhado da Marvel Studios como o principal modelo de blockbuster da década. “O público entendeu que a história não acabava em um filme e desde o lançamento do primeiro Vingadores até o Ultimato, ficou rendido a isso”, afirma o crítico.
Durante a década de 2010, a Marvel produziu 16 filmes e nenhum deles flopou comercialmente. Analisando este recorte, 13 longas foram produzidos pela DC Studios e 19 por empresas que adquiriram os direitos de adaptação de personagens da Marvel. Dentre eles, 7 floparam.
Portanto, em meio ao sucesso da Marvel Studios, a DC tentava replicar a fórmula. O crítico aponta que por mais que os personagens do estúdio fossem mais populares, faltou organização. “Embora tivessem os direitos de todos os personagens, quando a DC tentou fazer o seu universo compartilhado, não havia um produtor específico que estivesse cuidando unicamente disso.”
O Zack Snyder era um diretor que na época era quem mais se assemelhava com essa figura. Tinha ideias e auxiliava na produção, porém não orquestrava tudo como o Kevin Feige, presidente da Marvel Studios. Então, apesar de possuírem sucessos isolados, os filmes da DC não causaram no público a sensação de que estavam acompanhando uma história única. Tanto que o único longa do estúdio que está no ranking de 10 maiores bilheterias do gênero é Aquaman em décimo lugar, arrecadando US$1,1 bilhão.
Poucos meses antes do lançamento de Aquaman, a Marvel havia lançado o primeiro capítulo do que seria o fim da história que construíram por 10 anos em seu universo compartilhado: Vingadores Guerra Infinita. O resultado foi um sucesso que deixou de ser um filme e passou a se tornar um grande evento.
No caso, Guerra Infinita arrecadou cerca de US$2 bilhões e se tornou o filme preferido de Cecília. “Tiveram muitas participações, muitos núcleos de heróis e foi uma época em que todos os fãs se uniram para ver como seria a primeira parte do final da história.” Então, em 2019 a narrativa construída por 11 anos chegou ao fim com Vingadores Ultimato. O filme arrecadou ainda mais que Guerra Infinita, acumulando US$2,7 bilhões. “Eu acho que Ultimato finalizou uma linda história”.
Quarta era dos heróis no cinema (2020 - 2025): Desgaste

Depois do lançamento do último capítulo da Saga do Infinito, veio a pandemia da Covid-19, o que naturalmente esfriou o mercado cinematográfico. Então, a Marvel precisou mudar de estratégia. “Com o público em casa, o foco foi para o streaming e começaram a surgir muitos personagens e histórias ao mesmo tempo. Antes eram dois ou três filmes por ano, depois passaram a ser quatro séries e mais três filmes. O público começou a ter dificuldade para acompanhar tudo”, afirma Sadovski.
Depois da pandemia, a forma como a Marvel construía seus filmes mudou. “O problema é que antes tudo passava pelo Kevin Feige. A Marvel conseguia corrigir muita coisa na pós-produção porque ele supervisionava tudo de perto. Mas, quando a Disney passou a exigir mais, ficou impossível manter o mesmo padrão de qualidade e o público sentiu isso.” De acordo com o crítico, com a hiperprodução o estúdio passou a exigir demais do seu público. “Capitão América: Admirável Mundo Novo, por exemplo, exigia que o público tivesse visto Falcão e o Soldado Invernal anos antes para entender por que aquele personagem agora era o Capitão América. Acho que a boa vontade do público começou a se perder com isso.”

Apesar de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa ter arrecadado US$1,9 bilhão em bilheteria, isso não muda o fato de que o gênero passa por um momento de instabilidade, como mostra o gráfico de sucessos e fracassos apresentado no início desta reportagem.
Vendo o interesse seletivo do público, em 2026 a Marvel apostará em resgatá-lo por meio da nostalgia. Em dezembro deste ano, será lançado Vingadores: Doutor Destino que trará de volta o Robert Downey Jr., que agora fará o papel do vilão e o Chris Evans como Capitão América. “Não tenha dúvida, os dois filmes da Marvel esse ano serão dois dos maiores blockbusters do ano, tanto Homem-Aranha quanto Vingadores: Doutor Destino”, afirma Sadovski.
Enquanto a Marvel Studios tenta recuperar o interesse do público, a DC Studios busca reorganizar completamente o planejamento de suas produções. Segundo Sadovski, James Gunn, diretor cinematográfico, ao chegar no comando do estúdio, representou uma mudança importante na forma como os filmes estão sendo desenvolvidos. “Nenhum filme entra em produção se o roteiro não estiver 100% fechado”, explica o crítico. Para Sadovski, essa é a forma correta de reconstruir o gênero: priorizando roteiros sólidos antes do início das filmagens.
O primeiro grande teste desta nova fase da DC Studios foi o lançamento de Superman, dirigido por James Gunn. Apesar da recepção positiva da crítica (83% de aprovação no Rotten Tomatoes), o longa terminou o ano apenas na décima posição entre as maiores bilheterias de 2025. O resultado contrasta com o cenário vivido pelo gênero durante a década passada, quando filmes de super-herói dominaram os cinemas e ocuparam repetidamente as primeiras posições do ranking anual de arrecadação.
Para Sadovski, o atual momento do gênero não representa necessariamente um fim definitivo da popularidade dos super-heróis nos cinemas. O crítico acredita que o público não está saturado do gênero e que o problema estaria atrelado à qualidade das produções. “É mais um problema de qualidade do que de saturação. O público não está saturado de filmes bons.” Segundo Sadovski, novos sucessos podem surgir caso os estúdios encontrem novamente projetos e equipes criativas capazes de mobilizar o público.
Para o crítico, o cenário atual dos filmes de super-herói representa mais uma mudança de ciclo do que um declínio definitivo. “Eu não vejo como queda, vejo como onda. As coisas vivem ciclos, um termina e outro começa.” A própria bilheteria recente evidencia essa oscilação: enquanto Supergirl teve um desempenho abaixo das expectativas, arrecadando apenas US$ 126 milhões, Homem-Aranha: Um Novo Dia tornou-se o segundo filme mais rápido de todos os tempos a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão em bilheteria mundial.
O contraste mostra que, mesmo em um momento de instabilidade para o gênero, ainda existe espaço para produções capazes de mobilizar o público. Mais do que uma crise generalizada dos super-heróis, os resultados apontam para um cenário cada vez menos previsível, no qual o sucesso parece depender da capacidade de cada produção de despertar novamente o interesse.







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